Material de estudo pessoal · Dr. Guilherme Moura · Resumo com palavras próprias de dois capítulos do UpToDate (não publicar)
Forame oval patente – do diagnóstico ao fechamento
Roteiro de estudo sobre o forame oval patente (FOP): o que é, quando procurar, como diagnosticar com ecocardiograma e Doppler transcraniano, como decidir se o FOP explica um AVC (RoPE e PASCAL), quem se beneficia do fechamento percutâneo, o que mostram os ensaios e como conduzir antitrombóticos, recorrência e situações especiais.
- Fontes
- UpToDate · 2 capítulos
- Seções
- 10
- Recomend.
- 5
- Casos
- 50
- Flashcards
- 50
- Calculadoras
- 1
Fontes (PDFs nesta pasta): Hara H, Ammash NM. Patent foramen ovale. UpToDate, atualizado em 12/08/2025 — abrir PDF. Messé SR. Stroke associated with patent foramen ovale (PFO): Management. UpToDate, atualizado em 08/01/2026 — abrir PDF (o arquivo está com o nome “PREVENT-FAQs-FINAL.pdf”).
Resumo de estudo, escrito com palavras próprias, dos capítulos do UpToDate sobre o FOP (anatomia, complicações e diagnóstico) e sobre o manejo do AVC associado ao FOP. Não é transcrição: textos, tabelas e figuras originais estão nos PDFs — cada seção indica a página para conferir. Casos clínicos, flashcards, calculadora e fluxograma foram criados para o estudo a partir desse conteúdo.
Material de estudo, não destinado à publicação: o conteúdo do UpToDate é protegido por direitos autorais. Não substitui o texto original nem o julgamento clínico. Onde o resumo acrescenta leitura própria, isso aparece como 🎓 Interpretação didática.
Graduação do UpToDate — cor da barra lateral das recomendações:
Qualidade da evidência: A alta · B moderada · C baixa.
Três camadas separadas: Recomendação do capítulo (parafraseada, com o grau) · 📖 Resumo (síntese fiel, com palavras próprias) · 🎓 Interpretação didática. Siglas com sublinhado pontilhado mostram o significado ao tocar.
1O que é o FOP: prevalência e fisiopatologia
O FOP é um resquício da circulação fetal presente em cerca de um quarto da população adulta. Quase sempre é silencioso; sua importância está em permitir a passagem de êmbolos da circulação venosa para a arterial.
- Presente em 25–30% da população: 27% numa série de autópsia de 965 corações normais e 26% num estudo comunitário com ETE em 581 pessoas com ≥ 45 anos.
- Na autópsia, a prevalência cai com a idade (34% até 30 anos, 25% entre 30 e 80, 20% acima de 80), enquanto o tamanho médio aumenta (3,4 mm na infância até 5,8 mm após os 90 anos) — provavelmente porque os pequenos se fecham e os maiores persistem. No estudo comunitário com ETE, porém, a prevalência ficou estável com a idade.
- É mais frequente no AVC criptogênico, sobretudo abaixo dos 55 anos, faixa em que cerca de 40% dos AVC isquêmicos não têm causa definida. No PFO-ASA (581 pacientes, idade média 42), 37% tinham FOP isolado e 9% FOP com aneurisma do septo atrial; numa série mais velha (idade média 59), 39% tinham FOP. FOP grande foi mais comum no AVC criptogênico que no AVC de causa conhecida (20% vs 9,7%).
- O FOP funciona como uma válvula: abre quando a pressão do átrio direito supera a do esquerdo, permitindo embolia paradoxal (do sistema venoso para o arterial).
- Não é preciso shunt direita→esquerda permanente: um gradiente transitório basta. Ele ocorre normalmente no início da sístole ventricular e ao soltar uma manobra de Valsalva (evacuar, tossir, levantar peso).
- Num estudo com ETE, 57% dos portadores de FOP tinham shunt direita→esquerda em repouso e 92% com esforço ou tosse.
- Um FOP “esticado” pode se comportar como uma CIA em crescente: 1,7% (13 de 771) dos pacientes de uma série de fechamento de CIA, mais comum em idosos.
Duas ideias guiam o resto do material: (1) o FOP é comum — achá-lo não prova que ele causou nada; (2) o mecanismo é dinâmico — por isso o exame precisa de manobras (tosse, Valsalva) para não perder o shunt.
Fonte: UpToDate “Patent foramen ovale”, seção Prevalence and pathophysiology — PDF p. 1–2.
2Embriologia: por que o forame existe e por que não fecha
Na vida fetal o forame oval é indispensável; ao nascer, a queda da pressão direita e o aumento do retorno pulmonar empurram o flap contra o septo, e na maioria das crianças ele se funde.
- A partir da 4ª semana, o septo primum cresce do teto atrial em direção aos coxins endocárdicos; o espaço que resta é o forame primum.
- Antes de o forame primum fechar, surgem perfurações no septo primum que se unem e formam o forame secundum.
- À direita do septo primum cresce o septo secundum, que cobre parcialmente o forame secundum. A abertura que fica entre os dois é o forame oval; o septo primum restante vira uma válvula (flap) sobre ele.
- No feto, o sangue oxigenado da veia cava inferior atravessa o forame para o lado esquerdo; o da cava superior segue majoritariamente pela tricúspide.
- Ao nascer: os pulmões se expandem, a resistência vascular pulmonar e a pressão direita caem, e o retorno pulmonar eleva a pressão do AE — o flap encosta no septo secundum.
A fusão está completa até os 2 anos em 70–75% das crianças; os 25–30% restantes ficam com FOP. A causa da não fusão é desconhecida; há sinal de componente familiar: num estudo, irmãs de portadores tinham FOP em 77% vs 25% (OR 9,8), sem associação entre irmãos homens.
Fonte: UpToDate “Patent foramen ovale”, seção Embryology e Figura 1 — PDF p. 3 (figura na p. 13).
3Estruturas associadas: aneurisma do septo, Eustáquio, Chiari, CIA e Ebstein
O FOP raramente vem sozinho do ponto de vista anatômico. Algumas estruturas associadas aumentam o fluxo pelo forame e, com isso, o risco de embolia paradoxal.
| Estrutura | O que é | Por que importa |
|---|---|---|
| Aneurisma do septo atrial (ASA) | Tecido redundante e móvel na fossa oval, com excursão fásica de pelo menos 10–15 mm no ciclo cardiorrespiratório. | Frequentemente associado a FOP e/ou CIA; é um dos achados ecocardiográficos de alto risco usados no PASCAL. |
| Valva de Eustáquio proeminente | Prega na junção da veia cava inferior com o AD. | Pode manter o padrão fetal de fluxo, direcionando o sangue da cava inferior para o septo. |
| Rede de Chiari | Rede fenestrada de filamentos no AD, originada perto das valvas de Eustáquio e de Tebésio; presente em 2–3% dos corações normais. | Associada a FOP com shunt grande e a AVC criptogênico; pode ficar presa no dispositivo durante o fechamento. |
| Comunicação interatrial (CIA) | Defeito verdadeiro do septo; pode coexistir com o FOP ou ser um FOP “esticado”. | Muda a estratégia de fechamento (número e tipo de dispositivos, ou cirurgia). |
| Anomalia de Ebstein | Malformação da tricúspide. | A maioria tem defeito do septo interatrial (79% numa série de 106 pacientes). |
Quadro de estudo montado a partir do texto (não reproduz tabela do UpToDate).
- Em 1.436 ETE consecutivos, a rede de Chiari apareceu em 2%: 83% tinham FOP e 24% ASA; o ETT detectou só 8 de 29. FOP com shunt grande foi bem mais frequente com Chiari (55% vs 12%), e a rede foi mais comum entre os examinados por AVC criptogênico (4,6% vs 0,5%).
- Em pacientes que fizeram fechamento de FOP, valva de Eustáquio ou rede de Chiari se associaram a eventos embólicos recorrentes.
- Em 103 pacientes encaminhados para fechamento por suposta embolia paradoxal: 81 tinham só FOP, 12 só CIA e 10 ambos.
- Eustáquio e Chiari também favorecem a ortodeoxia (desaturação ao ficar em pé ou caminhar) por direcionarem o fluxo da cava inferior ao septo.
Fonte: UpToDate “Patent foramen ovale”, seção Association with other defects — PDF p. 3–5.
4Complicações e manifestações clínicas
A maioria dos portadores nunca terá sintoma. A complicação mais importante é o AVC isquêmico por embolia paradoxal; há outras, menos frequentes, que valem pelo raciocínio.
- AVC criptogênico = 20–40% dos AVC isquêmicos: sem fonte cardioembólica ou de grande artéria identificada e com distribuição que não sugere doença de pequenos vasos; a maioria tem aspecto embólico na imagem.
- Fala-se em AVC associado ao FOP quando há infarto de aparência embólica, FOP com shunt direita→esquerda e nenhuma outra fonte nem fator de risco após investigação completa.
| Situação | Ponto-chave | Conduta resumida |
|---|---|---|
| Platipneia-ortodeoxia | Dispneia e dessaturação em pé, melhorando deitado. Exige (1) um shunt — FOP, CIA, ASA fenestrado ou shunt intrapulmonar (síndrome hepatopulmonar, MAV pulmonar) — e (2) um componente funcional que aumente o shunt na posição ortostática (deformidade do septo ou do AD que direciona o fluxo da cava inferior). Também descrita com derrame pericárdico, constrição, enfisema, toxicidade por amiodarona, pneumectomia e cirrose. | Fechar o shunt é o tratamento definitivo; atenção para não prender valva de Eustáquio grande ou rede de Chiari no dispositivo. |
| Doença descompressiva / embolia gasosa | Em mergulhadores, bolhas podem cruzar o FOP; risco maior com FOP grande e com voo 12–48 h após o mergulho. O FOP também permite embolia gasosa paradoxal de outras causas. | Manejo da embolia gasosa e da doença descompressiva segue os capítulos próprios. |
| Enxaqueca | Associação descrita entre enxaqueca/cefaleia vascular e shunt direita→esquerda. | Não se recomenda rastrear FOP de rotina em quem tem enxaqueca. |
| Outras | IAM por embolia paradoxal, embolia sistêmica (ex.: infarto renal), embolia gordurosa, tumores de AD que elevam a pressão direita (embolia tumoral) e acometimento valvar esquerdo na síndrome carcinoide. | Raciocínio: lembrar do FOP diante de embolia arterial sem fonte esquerda. |
Quadro de estudo montado a partir do texto.
Fonte: UpToDate “Patent foramen ovale”, seções Complications e Management — PDF p. 5–7 e 10–11.
5Diagnóstico: quando procurar e qual exame
Procura-se FOP em quem teve AVC ou outro evento embólico sem causa definida e em quem tem manifestações sugestivas, como platipneia-ortodeoxia. Todos os métodos de ultrassom detectam o shunt com solução salina agitada (“teste de microbolhas”); só ETE e eco intracardíaco mostram onde ele está.
| Método | Vantagens | Limitações |
|---|---|---|
| ETT com microbolhas (harmônica) | Não invasivo, sem sedação; com boa janela pode ter sensibilidade igual ou maior que a do ETE. | Depende da qualidade da imagem; não define bem a anatomia do septo. |
| ETE com microbolhas (repouso, tosse e após Valsalva) | Considerado o exame mais definitivo: mostra o flap, o local do shunt, ASA e outras fontes (trombo, vegetação, massa, placa de aorta). | Sensibilidade muito variável (11–85% nos estudos): sob sedação o Valsalva é ineficaz (a sonda atrapalha o fechamento da glote) e o jejum reduz a pressão do AD. |
| Doppler transcraniano | Não invasivo, à beira do leito; sensibilidade e especificidade comparáveis às do ETE para shunt direita→esquerda. | Detecta o shunt, mas não o localiza nem avalia o coração e a aorta. |
| Eco intracardíaco | Visualiza o flap e a passagem das bolhas; usado também para guiar o fechamento. | Invasivo. |
| TC multidetectores e RM cardíaca | Podem mostrar o FOP. | Dados preliminares; provavelmente menos sensíveis que o ETE. |
Quadro de estudo montado a partir do texto. Doppler transmitral também é citado como método.
Na suspeita de AVC criptogênico ou outra indicação, começar pelo ETT com microbolhas e fazer ETE se o ETT for negativo ou não diagnóstico.
- Manobras: injetar em repouso, com tosse e ao soltar o Valsalva — o enchimento do AD com sangue do abdome abre o forame. Pedir para encher um balão durante a injeção pode ajudar no ETE.
- Local da injeção: veia femoral é mais sensível que a braquial.
- Positivo: pelo menos 3 bolhas no coração esquerdo.
- Momento: bolhas no lado esquerdo até 3 batimentos após opacificar o AD sugerem shunt intracardíaco (FOP/CIA); aparecimento tardio (após 3–5 batimentos) sugere shunt pulmonar (MAV). A regra tem base limitada e exceções.
- ETE negativo com suspeita alta: repetir ETT sem sedação com microbolhas.
- Gravação: o capítulo sugere revisar o estudo em registro analógico, porque a compressão digital pode reduzir a sensibilidade.
- Segurança: eventos isquêmicos cerebrais pelas bolhas são raros. Medidas sugeridas: agitar bem (bolhas pequenas), manter a seringa na vertical para reter bolhas grandes e não repetir injeções depois de documentar shunt grande.
Achar FOP num paciente com evento isquêmico não prova causalidade: por ser comum, ele pode ser um “espectador inocente”. A investigação deve buscar outras causas de AVC e também uma fonte venosa (TVP), que reforça o mecanismo paradoxal e muda o tratamento. O FOP achado por acaso, sem evento, em geral não exige seguimento nem tratamento.
Fonte: UpToDate “Patent foramen ovale”, seção Diagnosis and evaluation e resumo — PDF p. 7–12.
6O FOP explica o AVC? RoPE, PASCAL e decisão
Como o FOP é comum e o risco de AVC por ele é baixo, sempre resta incerteza sobre a causalidade. O RoPE avalia o paciente; o PASCAL junta o RoPE com as características do FOP e diz quão provável é que o FOP tenha causado o AVC. Mais abaixo estão, em sequência, a tabela, a calculadora, o algoritmo e o fluxograma de decisão.
Soma de 0 a 10 pontos; quanto maior, mais provável que o FOP seja a causa (e não um achado incidental):
- 1 ponto para cada: sem hipertensão; sem diabetes; sem AVC/AIT prévio; não tabagista; infarto cortical na imagem.
- Idade: 18–29 anos = 5; 30–39 = 4; 40–49 = 3; 50–59 = 2; 60–69 = 1; ≥ 70 = 0.
Escore de Kent et al. (Neurology 2013). Tabela original no PDF do capítulo de manejo, p. 19.
PASCAL em 3 passos
O PASCAL (PFO-Associated Stroke Causal Likelihood) responde a uma pergunta só: qual a chance de este AVC ter sido causado pelo FOP? Ele cruza duas informações:
- O paciente — pelo RoPE: baixo (0–6) ou alto (7–10). Quanto mais jovem e sem fatores de risco vasculares, menos provável que exista outra explicação para o AVC.
- O FOP — pela fonte de risco: FOP com shunt pequeno e sem ASA (baixa); FOP com ASA ou shunt grande (média); isso mais TVP/TEP concomitante antes do infarto (alta); trombo atravessando o FOP (muito alta).
- Calcule o RoPE (0 a 10): idade + 1 ponto para cada item favorável (sem hipertensão, sem diabetes, sem AVC/AIT prévio, não tabagista, infarto cortical). Anote se é baixo (0–6) ou alto (7–10).
- Classifique a fonte de risco do FOP pelo eco e pela investigação venosa: baixa, média, alta ou muito alta.
- Cruze os dois na tabela: improvável, possível, provável, altamente provável ou definida.
Ferramentas de decisão
| Fonte de risco | Características do FOP | RoPE baixo (0–6) | RoPE alto (7–10) |
|---|---|---|---|
| Muito alta | FOP com trombo atravessando-o | Definida | Definida |
| Alta | TVP ou TEP concomitante, antes do infarto, + FOP com ASA ou com shunt grande | Provável | Altamente provável |
| Média | FOP com ASA ou FOP com shunt grande | Possível | Provável |
| Baixa | FOP com shunt pequeno e sem ASA | Improvável | Possível |
Conduta (capítulo de manejo): improvável → não fechar (sugestão contra · Grau 2C); possível, provável, altamente provável ou definida → fechamento percutâneo + antiplaquetário se ≤ 60 anos, infarto embólico, nenhuma outra causa e sem indicação de anticoagulação (sugestão · Grau 2B). Com TVP/TEP há indicação de anticoagulação: siga o algoritmo abaixo.
Benefício do fechamento (meta-análise de 2021, versão simplificada do PASCAL em 3 categorias): improvável HR 1,14 (sem benefício) · possível HR 0,38 · provável HR 0,10. Quanto menor o HR, maior o benefício.
Tabela redesenhada em português a partir da imagem da classificação PASCAL (Elgendy et al., 2020) que você enviou; ela não está entre os dois PDFs.
O resultado mostra a conta, a classificação e a célula correspondente na tabela acima.
No celular, arraste o algoritmo para o lado para ver tudo.
Vale para todos: prevenção secundária completa — antitrombótico, controle da pressão, redução do LDL e mudanças no estilo de vida.
* Anticoagulação por mais de 1 ano: o benefício do fechamento é incerto. Pode ser opção em casos selecionados — AVC recorrente sem outra causa mesmo bem anticoagulado, ou quem deixou de anticoagular —, com decisão individualizada.
¶ Após o fechamento (percutâneo ou cirúrgico): antiplaquetário — AAS 75–81 mg/dia + clopidogrel 75 mg/dia por 3 meses e depois AAS.
Δ Indicação concomitante de cirurgia valvar: fechamento cirúrgico do FOP no mesmo ato. Se o fechamento percutâneo não for viável e não houver indicação de cirurgia cardíaca, não fazer fechamento cirúrgico.
◊ Acima de 60 anos o benefício não foi demonstrado (faixa excluída dos ensaios). Pode ser considerado em selecionados — mais perto dos 60 e com baixo risco cardiovascular aterosclerótico —, com decisão individualizada.
§ Conduta do AVC criptogênico (capítulo próprio do UpToDate, fora destes PDFs).
Cada eixo é uma “metade da prova”. O RoPE alto diz que não sobra outra explicação; a fonte de risco diz que este FOP consegue embolizar — e TVP/TEP ou um trombo visto atravessando o forame reforçam muito o mecanismo. Com as duas metades fortes, a causalidade sobe para provável ou mais; com nenhuma, é improvável e o FOP é, provavelmente, só um achado.
“Shunt grande” é um conceito do ecocardiograma com microbolhas; a contagem exata de bolhas que o define varia entre os estudos e não aparece nestes PDFs.
Na meta-análise de dados individuais de 2021 (6 ECR, 3.740 pacientes, seguimento mediano de 57 meses), o fechamento reduziu o AVC anual de 1,09% para 0,47% (HR 0,41). O ganho dependeu da causalidade:
- Pelo RoPE: alto, HR 0,21; baixo, HR 0,61.
- Pelo PASCAL: provável, HR 0,10; possível, HR 0,38; improvável, HR 1,14 (sem benefício).
Ou seja, o PASCAL separa melhor quem ganha com o fechamento. Além disso, o risco de FA após o fechamento é inversamente proporcional à confiança de que o FOP causou o AVC — quem tem menos a ganhar também tem mais FA.
Pense no RoPE como “quanto este paciente não tem outra explicação para o AVC” e nos achados de alto risco como “quanto este FOP é capaz de embolizar”. O PASCAL junta as duas perguntas.
Fonte: UpToDate “Stroke associated with PFO: Management”, seções Role of RoPE and PASCAL e Meta-analyses; Tabela 1 — PDF p. 2, 6–7, 19 e 20–21.
7Quem deve fechar o FOP
O candidato típico tem até 60 anos, infarto de padrão embólico, nenhuma outra causa após investigação completa, causalidade ao menos possível pelo PASCAL e nenhuma indicação de anticoagulação.
- Idade ≤ 60 anos.
- Topografia embólica do infarto (não lacunar).
- Nenhuma outra fonte de AVC após avaliação abrangente.
- Causalidade possível, provável ou definida pelo PASCAL.
- Sem indicação concomitante de anticoagulação.
Na prática, com ≤ 60 anos e sem outra causa, o fechamento se justifica quando o RoPE é ≥ 7 e/ou há shunt grande ou ASA.
Até 60 anos, sem indicação de anticoagulação e com AVC de causalidade possível, provável ou definida pelo PASCAL: fechamento percutâneo do FOP associado ao antiplaquetário.
Causalidade improvável pelo PASCAL: não fechar o FOP.
FOP que preenche critérios mas não é passível de fechamento percutâneo, sem outra indicação de cirurgia cardíaca: não fazer fechamento cirúrgico (anticoagulação prolongada pode ser considerada).
| Situação | Conduta resumida |
|---|---|
| Idade > 60 anos | Benefício e segurança incertos (fora dos ensaios). Na maioria não se fecha; pode ser considerado em casos selecionados — perto dos 60, com pouca carga aterosclerótica e achados ecocardiográficos de alto risco —, com decisão individualizada. |
| Anticoagulação curta (≤ 1 ano), ex.: TEV provocado | Anticoagulação por 3–12 meses costuma bastar como antitrombótico; o fechamento, se indicado, pode ser adiado até o fim dela. Se o gatilho não deve se repetir, o fechamento não é obrigatório depois (pode ser considerado) e o antiplaquetário indefinido é razoável. |
| Anticoagulação longa (> 12 meses), ex.: TVP não provocada ou recorrente | Benefício do fechamento incerto; decisão multidisciplinar e compartilhada. Na maioria não se fecha; opção para quem tem AVC embólico recorrente sem outra causa mesmo bem anticoagulado, ou para quem deixou de anticoagular. |
| FA ou prótese valvar | São mecanismos de maior risco que o FOP; o FOP tende a ser achado incidental e não costuma mudar a conduta. |
| Indicação concomitante de cirurgia cardíaca (ex.: troca valvar) | Fechamento cirúrgico do FOP é apropriado, se o paciente preenche os critérios. |
Quadro de estudo montado a partir do texto e do algoritmo do capítulo (PDF p. 20–21).
O algoritmo e o fluxograma interativo de decisão estão na seção 6, logo depois da tabela PASCAL e da calculadora.
A decisão deve ser discutida pelo neurologista e pelo cardiologista com o paciente: redução do risco de AVC recorrente, risco muito pequeno de complicação grave do procedimento e aumento do risco de FA, de acordo com os valores do paciente.
Observação do capítulo: o PASCAL foi publicado (2021) depois do documento europeu de 2018, da política do NHS de 2019, da recomendação da AAN de 2020 e da diretriz AHA/ASA de 2021, que por isso não o incorporam.
Fonte: UpToDate “Stroke associated with PFO: Management”, seções Patient selection, Special considerations in anticoagulated patients e Informed decision-making; Algoritmo 1 — PDF p. 2–5, 15–17 e 20–21.
8A evidência: ensaios e meta-análises
Em pacientes selecionados até 60 anos, o fechamento reduz o AVC recorrente em cerca de 60% em relação ao tratamento clínico — de ~5% para ~2% em 3 a 6 anos (NNT ≈ 30). Os primeiros ensaios foram neutros; os posteriores, positivos.
| Ensaio | População e desenho | Resultado principal | Detalhe |
|---|---|---|---|
| CLOSURE I | 909 pacientes ≤ 60 anos, AVC ou AIT; dispositivo STARFlex; 2 anos | Neutro: desfecho composto 5,5% vs 6,8% (HR 0,78) | Mais complicações vasculares (3,2% vs 0) e FA (5,7% vs 0,7%); dispositivo saiu de linha e é excluído das meta-análises |
| PC | 414 pacientes < 60 anos (AVC, AIT ou embolia periférica); Amplatzer; ~4 anos | Neutro: 3,4% vs 5,2% (HR 0,63) | FA 2,9% vs 1,0% (não significativo) |
| RESPECT | 980 pacientes 18–60 anos; Amplatzer | Primária (2,6 anos) neutra: 1,8% vs 3,3% (HR 0,49); estendida (5,9 anos) positiva: HR 0,55 | Mais abandono e menor exposição no braço clínico. TEV após 30 dias mais frequente em quem tinha TVP prévia |
| REDUCE | 664 pacientes 18–59 anos, AVC embólico com shunt ao ETE; randomização 2:1; ~5 anos | Positivo: AVC 1,8% vs 5,4% (HR 0,31) | RM obrigatória: novos infartos (clínicos ou silenciosos) 4,7% vs 10,7% (RR 0,44) |
| CLOSE | 16–60 anos, com ASA ou shunt grande; 3 braços (fechamento, antiplaquetário, anticoagulação); ~5,3 anos | Positivo: 0 AVC com fechamento vs 14 com antiplaquetário (HR 0,03) | Anticoagulação vs antiplaquetário: 3 vs 7 AVC (HR 0,44, não significativo) |
Quadro de estudo com os números do texto do capítulo. Detalhes de cada ensaio no PDF p. 7–8.
- 2018 (PC, RESPECT estendido, REDUCE, CLOSE; 2.531 pacientes): AVC de 5,1% para 1,8% (redução absoluta 3,3%) — NNT ≈ 30. Outra meta-análise dos mesmos ensaios: 4,1% para 1,2% (redução absoluta 3,1%).
- 2021, dados individuais (6 ECR, 3.740 pacientes): HR 0,41, com o ganho concentrado nos casos de causalidade provável/possível pelo PASCAL (seção 6).
- Todas mostram mais FA nova no grupo fechamento.
- Por que os recentes foram positivos: recrutaram quando o fechamento “fora de protocolo” já tinha diminuído; exigiram imagem confirmando o AVC; excluíram infartos lacunares; seguiram por mais tempo; e selecionaram FOP com shunt grande ou ASA.
- Limitações: desfechos avaliados sem cegamento (o REDUCE atenua isso com RM); poucos eventos; seguimento curto nos primeiros; recrutamento lento, com suspeita de que pacientes de alto risco foram fechados fora dos estudos; quase só < 60 anos; AVC recente (em geral < 6 meses).
- Acima de 60 anos, uma série observacional de 388 pacientes fechados teve 1,6 evento/100 pacientes-ano, menos que o previsto pelo RoPE (observado/esperado 0,31), mas com mais eventos e mais FA que os jovens.
- Como o risco de AVC sob tratamento clínico é relativamente constante (1–1,5% ao ano), o benefício provavelmente persiste mesmo além de 6 meses do AVC, em pacientes bem selecionados.
Fonte: UpToDate “Stroke associated with PFO: Management”, seção Benefit — PDF p. 5–9.
9O procedimento: fechamento percutâneo e cirúrgico
O fechamento percutâneo é feito por via femoral, guiado por eco intracardíaco ou ETE. A complicação mais comum é a FA nova; as demais são raras. O fechamento cirúrgico fica para quem já tem outra indicação de cirurgia cardíaca.
- Contraindicações: filtro de veia cava inferior, risco de sangramento elevado ou coagulopatia, anatomia vascular, cardíaca ou do FOP inadequada.
- ETE pré-procedimento: confirmar que o shunt é por FOP; avaliar a anatomia do septo (bordas, comprimento do túnel, ASA, CIA associadas — se dá para fechar tudo com um ou dois dispositivos ou se é melhor cirurgia); excluir outras fontes (trombo, massa, vegetação).
- Acesso pela veia femoral direita; cruzar o FOP com fio-guia ou cateter sob fluoroscopia e eco (ETE ou intracardíaco).
- Fio-guia rígido posicionado numa veia pulmonar.
- Se usado, o balão de medida orienta o tamanho: dispositivo com cerca de 2 vezes o diâmetro estirado do defeito.
- Sistema de entrega lavado e aspirado (evitar embolia gasosa); abrir o disco esquerdo no AE, tracioná-lo contra o septo e então abrir o direito.
- Confirmar a posição ao eco, liberar o dispositivo e pesquisar shunt residual e complicações.
O eco intracardíaco costuma ser preferido porque dispensa intubação e anestesia geral (o procedimento é feito com sedação consciente). Antitrombóticos são usados antes, durante e depois; no CLOSE, por exemplo: clopidogrel 300 mg, heparina de baixo peso molecular ou manutenção do antiplaquetário antes, e heparina não fracionada 100 UI/kg (até 10.000 UI) durante o procedimento.
- FA/flutter nova: a mais comum; aumento absoluto de cerca de 3,4% numa meta-análise. O impacto em longo prazo é pouco conhecido; manejo semelhante ao da FA após cirurgia cardíaca.
- Raras: hematoma no acesso, migração ou embolização do dispositivo, erosão (0,2–0,3% nos dispositivos de CIA, sobretudo nos primeiros 6 meses; provavelmente mais rara no FOP — pode causar derrame, tamponamento ou fístula) e trombose do dispositivo, com possível AVC.
- Apropriado para quem tem até 60 anos, AVC associado ao FOP e indicação concomitante de cirurgia cardíaca (ex.: valvar), por técnica convencional, minimamente invasiva ou robótica.
- Não há ensaios randomizados. Séries mostram 7–14% de eventos cerebrovasculares em 1–2 anos, provavelmente por outros mecanismos: em 91 pacientes operados, livres de evento em 93% em 1 ano e 83% em 4 anos, só AIT, com fechamento íntegro ao ETE.
- FOP achado por acaso durante cirurgia em paciente de alto risco: fechá-lo pode aumentar o AVC perioperatório (2,8% vs 1,2%, OR 2,47, num estudo retrospectivo com mais de 13 mil adultos), sem diferença de sobrevida.
Fonte: UpToDate “Stroke associated with PFO: Management”, seções Percutaneous PFO closure e Surgical PFO closure — PDF p. 5 e 9–12.
10Antitrombóticos, prevenção e AVC recorrente
Todo paciente com AVC e FOP precisa de antitrombótico e de controle de fatores de risco, tenha ou não fechado o FOP. Na recorrência, primeiro se descobre o mecanismo.
Após o fechamento (percutâneo ou cirúrgico), sem indicação de anticoagulação: antiplaquetário de longo prazo, e não “nenhum tratamento” nem anticoagulação. Esquema do autor: AAS 75–81 mg/dia + clopidogrel 75 mg/dia por 3 meses, depois AAS isolado.
AVC associado ao FOP tratado com antiplaquetário, sem fechamento, que tem novo AVC embólico sem outra causa: fechar o FOP além do antitrombótico. Trocar de antiplaquetário ou passar para anticoagulante é alternativa razoável.
- Sem fechamento e sem indicação de anticoagulação: antiplaquetário em vez de anticoagulante, como no AVC criptogênico em geral.
- Com indicação de anticoagulação (TVP/TEP, outro TEV, trombofilia, FA): anticoagular conforme a indicação, e a anticoagulação costuma ser o único antitrombótico.
- Antes do fechamento: igual ao manejo agudo dos outros subtipos de AVC isquêmico.
- Comparação anticoagulante × antiplaquetário: meta-análise de 12 estudos observacionais (2.385 pacientes) sem diferença (AVC 4% vs 5%); meta-análise de 6 ECR (PICSS, CLOSE, NAVIGATE ESUS, RESPECT ESUS, ATTICUS e um estudo chinês com dabigatrana) com menos AVC sob anticoagulação (RR 0,59), mas com poucos eventos e intervalo de confiança largo.
- Todas as medidas de prevenção secundária: estilo de vida (dieta, exercício, parar de fumar, moderar o álcool), controle da pressão e estatina se indicada.
- Como os êmbolos vêm sobretudo das veias das pernas: evitar ficar muito tempo sentado com joelhos dobrados e pernas pendentes ou cruzadas, e evitar ficar parado em pé por muito tempo.
- Viagens longas com fatores de risco para TEV: caminhar com frequência, exercícios de panturrilha, hidratação, evitar sedativos e usar meia de compressão graduada — sobretudo em quem teve TVP no evento inicial.
| Cenário | Conduta resumida |
|---|---|
| Qualquer recorrência | Reavaliação completa do mecanismo: cardioembolia, aterosclerose de grande artéria, doença de pequenos vasos e outras causas podem ocorrer com ou sem FOP fechado. |
| FOP já fechado | Avaliar o dispositivo: trombo, shunt residual e defeitos. Lembrar da FA (risco maior nas primeiras semanas após o implante). |
| FOP não fechado e ainda a causa mais provável | Fechar o FOP. |
| FOP fechado e novo AVC embólico de fonte indeterminada | Anticoagulação empírica é opção razoável. |
| Trombo no dispositivo | Anticoagular; embolia recorrente nesse cenário pode exigir retirada cirúrgica do dispositivo com fechamento do defeito. |
Quadro de estudo montado a partir do texto.
Fonte: UpToDate “Stroke associated with PFO: Management”, seções General management e Recurrent ischemic stroke — PDF p. 12–15 e 17–18.
📌O FOP em 2 minutos
- Comum: 25–30% da população; achá-lo não prova causalidade.
- Mecanismo: embolia paradoxal por shunt direita→esquerda transitório (tosse, Valsalva).
- Quando procurar: AVC/embolia sem causa e platipneia-ortodeoxia; não rastrear na enxaqueca.
- Como: ETT com microbolhas primeiro (repouso, tosse, soltar Valsalva); ETE se negativo ou não diagnóstico; DTC detecta, mas não localiza.
- Microbolhas: ≥ 3 bolhas à esquerda em até 3 batimentos = intracardíaco; tardio = pulmonar.
- Causalidade: RoPE (0–10) + shunt grande/ASA = PASCAL improvável, possível ou provável.
- Fechar: ≤ 60 anos, infarto embólico, sem outra causa, PASCAL ≥ possível e sem anticoagulação (Grau 2B).
- Não fechar: PASCAL improvável; FOP incidental; > 60 anos só em casos selecionados.
- Benefício: AVC ~5% → ~2% em 3–6 anos (NNT ≈ 30); custo: mais FA (~3,4% absoluto).
- Depois: AAS + clopidogrel por 3 meses e AAS por tempo indeterminado; sem fechamento, antiplaquetário.
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🎓Desafio final — 10 casos integradores
Casos que cruzam diagnóstico, causalidade, indicação de fechamento, antitrombótico e situações especiais no mesmo paciente.
